Postado em: 29/09/2026

Gestão de fretado: por que a maioria das empresas ainda opera no escuro

Entre ocupação sem monitoramento, custos sem visibilidade e manutenção sem rotina, os dados mostram o tamanho do desafio de gerir o fretado corporativo hoje.

Postado em: 29/09/2026

Gerir o transporte fretado corporativo deixou de ser uma questão operacional simples. Um levantamento realizado da KPMG, que analisou práticas de 50 empresas brasileiras em 28 quesitos de gestão, custos, satisfação e políticas internas, mostra um setor em transição: as empresas já entendem que o fretado é estratégico, mas muitas ainda gerenciam esse benefício de forma manual, fragmentada e sem dados estruturados.

A seguir, reunimos os principais achados do estudo e o que eles revelam sobre a maturidade do mercado.

Ocupação alta, mas pouco monitorada

O benchmark aponta que a taxa de ocupação dos veículos varia bastante conforme o público: entre 70% e 90% na área operacional (colaboradores mais dependentes do fretado para chegar ao trabalho) e entre 40% e 65% na área administrativa. O problema é que nem todas as empresas acompanham esse indicador de forma estruturada, o que compromete o planejamento de melhorias e o dimensionamento correto da frota.

Sem esse dado em mãos, fica difícil saber se a frota está superdimensionada (gerando custo desnecessário) ou subdimensionada (gerando lotação e queda de satisfação). A ocupação é, na prática, um dos indicadores mais básicos e ao mesmo tempo mais negligenciados da gestão do benefício.

Gestão ainda incipiente em pontos críticos

O estudo identificou boas práticas emergentes, como auditorias periódicas nas linhas, revisão de roteirização e análise da taxa de ocupação. Mas também revelou uma lacuna relevante: em grande parte das empresas, vistorias regulares nos veículos e manutenção preventiva ainda não são realizadas de forma sistemática, e a revisão periódica das rotas é feita apenas por parte dos grupos analisados — em alguns casos, nunca.

Essa ausência de rotina impacta diretamente a segurança e eficiência, e é apontada pelo próprio estudo como uma das principais oportunidades de melhoria entre as empresas participantes.

Custos pouco transparentes

Outro ponto crítico do estudo é a falta de precisão sobre o custo médio real por colaborador, já que muitas empresas se limitam a informar estimativas ou teto de gastos. A ausência de um padrão de mercado para o transporte informal — que oscila entre o reembolso de táxi/aplicativo e outras alternativas de transporte.

Esse cenário representa um entrave estratégico: sem clareza financeira e com dados restritos, a visibilidade do processo fica comprometida. Consequentemente, qualquer tentativa de otimizar rotinas ou renegociar contratos perde força, levando a gestão a tomar decisões com base em suposições, e não em dados.

Satisfação dos colaboradores varia — e depende de gestão ativa

Os índices de satisfação com o fretado variaram de 75% a 90% entre as empresas que informaram o dado, com queixas recorrentes sobre limpeza dos veículos, conforto no trajeto e rotas longas. A conclusão do próprio estudo é direta: empresas com acompanhamento mais rigoroso do serviço têm índices de satisfação mais altos.

Isso reforça a lógica de tratar o fretado como benefício estratégico de retenção, e não apenas como custo operacional — especialmente em um cenário onde as empresas estão oficializando o retorno ao escritório, onde a qualidade do deslocamento pesa na decisão de colaboradores ficarem ou saírem da empresa.

Tecnologia é tendência, mas ainda não é unanimidade

O benchmark confirma que a adoção de sistemas digitais de monitoramento é uma tendência crescente, permitindo acompanhamento em tempo real de pontualidade, ocupação e status de manutenção dos veículos. Ainda assim, parte relevante das empresas analisadas não utiliza nenhum recurso tecnológico para gerir o fretado, seguindo com controles manuais ou pouco estruturados.

Essa divisão entre empresas mais e menos digitalizadas ajuda a explicar boa parte das diferenças observadas em ocupação, satisfação e transparência de custos ao longo do estudo.

O retrato geral: um setor em transição

O panorama que a KPMG traça é claro: o fretado corporativo está deixando de ser tratado como commodity operacional para se tornar um ativo estratégico de retenção, eficiência de custos e employer branding. Mas a maturidade de gestão ainda é desigual entre as empresas — muitas seguem sem dados estruturados, sem tecnologia e sem processos recorrentes de auditoria.

Os dados sugerem que o diferencial competitivo, nos próximos anos, estará menos em quem oferece o benefício e mais em quem consegue gerenciá-lo com informação, previsibilidade e foco na experiência do colaborador.

Fonte dos dados de mercado: KPMG, “Benchmark de Fretado Corporativo: Práticas e Tendências na Gestão do Benefício”, junho de 2025.